A arpillera como solução aos resíduos têxteis




A arpillera é uma técnica têxtil linda e cheia de significado. Ela possui raízes numa antiga tradição popular iniciada por um grupo de bordadeiras de Isla Negra, um lugarejo que fica no litoral central do Chile.

Sua confecção consiste em técnicas de tapeçarias tridimensionais que reaproveitam retalhos, transformando-os em amplas histórias da vida cotidiana, que são contadas a partir de apliques de pano costurados sobre um tecido rústico.

É daí que vem o termo “Arpillera” que tem origem castelhana e significa tecido grosso e áspero. É uma alusão ao saco que serve como base o qual, normalmente, é feito de cânhamo ou juta.  

Foi durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, iniciada em 1973, que as oficinas de arpilleras se espalharam por todo o país, onde foram transformadas em uma das principais ferramentas de denúncia das atrocidades do governo, que eram contadas por meio dos tapetes.

O processo é rico e toda a costura é feita à mão, utilizando agulhas e fios. Às vezes são adicionados fios de lã ou de crochê, para realçar os contornos das figuras. Normalmente, o tamanho dessas obras era determinado pela dimensão do saco. Uma vez consumido seu conteúdo, ele era lavado e cortado em seis partes, possibilitando assim que o mesmo número de mulheres bordasse sua própria história, a de sua família e de sua comunidade.

As arpilleiras é que davam voz às mulheres chilenas. Era assim que mães e esposas dos desaparecidos podiam romper o silêncio imposto pela repressão e, apesar de todo sofrimento, fazer conhecidas as suas dores e o clamor por justiça. Através de agulhas e linhas bordava sobre sacos de batatas, com os retalhos das roupas dos seus ente queridos, as injustiças e os pedidos de socorro, sufocados pela saudade.


Uma breve contextualização sobre Resíduos Têxteis


Atualmente, as indústrias de confecção descartam uma enorme quantidade de sobras de tecidos resultantes de suas produções e esse descarte acaba por sobrecarregar os aterros sanitários que já estão com suas capacidades comprometidas.

Embora os retalhos, quando limpos e selecionados, sejam passíveis de reciclagem e reaproveitamento, eles ainda são descartados no lixo comum. É estimado que 170 mil toneladas de resíduos têxteis sejam geradas, por ano, no Brasil. Destes, pelo menos 40% são reprocessados por empresas recicladoras e os outros 60% descartados em aterros sanitários.

É uma quantidade absurda e é aí que entra a arpilleira. Muitas cooperativas tem conscientizado os produtores de roupas a doarem seus resíduos que são aproveitados em oficinas voltadas para pessoas em situação de vulnerabilidade.



Para saber um pouco mais, assista ao filme “Arpilleras”, uma produção que conta a história de dez mulheres atingidas por barragens das cinco regiões do Brasil e que, por meio dessa técnica de bordado, costuraram seus relatos de dor, luta e superação frente às violações sofridas em suas vidas cotidianas.

Imagens: Reprodução




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