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Sou jornalista e especialista em comunicação e gestão de e-Commerce de Moda. Além de estar à frente do B. Office e aqui do neilabahia.com, chefiei equipes de produção de roupas femininas. Você também me encontra no Instagram com o perfil @neilabahia!
Neila Bahia

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Um guia completo para entender o que é o Slow Fashion

Salvador - BA, Brasil

Se a gente traduzir, ao pé da letra, Slow Fashion que dizer Moda Lenta. E é justamente o que o termo significa: um modo de produção sem pressa, que tem como principal fundamento entregar uma roupa mais "pensada", "preocupada".




Assim, podemos afirmar que Slow Fashion é a produção de roupa de forma lenta, onde o tempo das coisas e das pessoas é respeitado. Essa é uma foma de fazer roupas levando em conta os impactos da produção na sociedade e no meio ambiente. Nesse modelo, o lucro não é mais importante que o bem-estar geral.

O termo Slow Fashion foi usado pela primeira vez em 2004 pela escritora de moda Angela Murrills e, desde então, vem ganhando cada vez mais força. Ela percebeu as diferenças entre desse método  com o do seu antagônico, o fast fashion - que é a produção em massa de roupas, que gera dependência do consumidor.

Essa dependência acontece porque as produções de curta durabilidade são fabricadas continuamente, sendo vendidas a preços relativamente baixos e tendo como aliado o marketing apelativo e de massa, o que faz com que as pessoas comprem cada vez mais. 


Slow Fashion Brasil - Um caso à parte


Fora do país, Slow Fashion é o contrário de Fast Fashion, o que faz muito sentido. Porém, isso não funciona para nós que temos um sistema muito diferente.

Isso porque enquanto por lá a maioria das roupas são importadas dos países asiáticos, por aqui mais de 90% do vestuário consumido é produzido por fábricas instaladas aqui mesmo.

Pouco mais de 20% do mercado é controlado por grandes varejistas, enquanto cerca de 30% dos vendedores vivem na informalidade, como sacoleiros e camelôs. Quase metade do mercado, portanto, é formada por comércio de bairro e redes locais.

Por isso, não importa se grande ou pequena, se a loja não fabrica suas próprias roupas, as peças são produzidas nos mesmo lugares, pelas mesmas pessoas, nas mesmíssimas condições.

Por esse motivo é tão perigoso importarmos um discurso que não condiz com nossa realidade. Dizer não às lojas de departamento ou perguntar quem fez nossas roupas não responde o que de fato é relevante. No Brasil, é fundamental saber, em primeiro lugar, em que condições nossas roupas foram feitas.


Sistema de confecção brasileiro - A Rota da Moda.


No Brasil, temos problemas estruturais que são difíceis de solucionar, porque se produzimos é claro que precisaremos consumir essa produção. Isso significa que para as lojas com os estoques enormes e terceirizados.

Por isso, quando muitos lojistas perceberam que poderiam comprar dos asiáticos que ofereciam peças com preços mais baixos que os praticados por aqui num menor tempo, foi um Deus nos acuda. A importação fez com que o governo aumentasse rapidamente a taxa sob esses produtos, numa medida que foi chamada de "Salvaguarda do Vestuário Nacional".

E para manter as coisas funcionando, ajustou-se o tempo de produção o para o mais rápido possível e com um preço tão competitivo quanto os de lá. Agora, imagina o Brasil competindo com a China, a  Índia... Sentiu o drama? Dá pra perceber que por aqui as coisas não são nada bonitas.

Esses produtores estão localizados, principalmente, em São Paulo, Paraná, Pernambuco e Bahia, que com seus pólos e parques têxteis formam o que chamamos de Rota da Moda.

Perceba que essa rota é estratégica para atender todo o país. Eles praticamente não competem entre si, já que o estado produtor é escolhido conforme as necessidades logísticas, enquanto o preço varia de acordo com a quantidade de peças solicitadas. Essa é uma equação simples de entender: quanto mais peças no pedido menor será o valor dela.

Por isso, desconfie da loja que apresenta uma nova coleção a cada semana, que precisa fazer liquidação a todo tempo para zerar seus estoques e não permite que você saiba como são fabricadas  as suas peças.




Slow: uma Moda justa, sem exploração.


Estamos exaustos de ouvir que a Indústria da Moda é a segunda que mais polui o planeta. E isso se deve aos seus quase 80 bilhões de peças fabricadas por ano, o que a deixa atrás apenas dos produtores de petróleo em termos de degradação.

Então, pra que cargas d'água se produz tanto? E mais, pra que o Brasil produz tanto a ponto de ser o 4º maior do mundo, engrossando esse número assustador, se nem sequer exportadores somos? São respostas que o sistema de lucro explica, mas nada justifica.

E por falar em lucro, é preciso ter em mente que preço alto nem sempre é garantia de uma roupa livre de exploração. Muito pelo contrário! Sabemos que muitas lojas renomadas fixam suas próprias etiquetas nas roupas compradas sem o menor constrangimento ou preocupação a respeito das condições em que foram produzidas.

O Slow Fashion vai na contramão disso tudo, pois valoriza produtores locais e entende que ninguém precisa de tanta roupa. Só que essa é uma luta árdua em que estamos em grande desvantagem.


Agência Brasil (./Agência Brasil)

O Consumo consciente.


Nós, seres humanos temos uma tendência maravilhosa - só que não - de recortar só o que convém. De não se preocupar em ir além, estudar, perceber. Acreditamos que apenas levantar uma placa mostrando quem fez nossas roupas e deixar de comprar em Fast Fashion é o que vai resolver todos os nossos problemas. Não vai.

Conseguimos transformar um movimento criado para reduzir o consumo em mais uma forma de vender, fazendo as pessoas consumirem o que não precisam. É por isso que afirmamos que no poder de compra está a ponta mais frágil do sistema.

Mas, mesmo assim, isso já é alguma coisa. Sou do time que acredita nisso e que não pensa que o consumo consciente é uma mentira. A forma de definir essa consciência é que pode ser.

Eu sou otimista e acredito que chegará o diz em que não seremos os desonestos e egoístas que só adotam o que é conveniente. Vai chegar o momento em que todo mundo se preocupará verdadeiramente com o nosso planeta e com os nossos semelhantes.

Mas, enquanto isso não acontece, vamos sempre fazermos a nossa parte, escolhendo bem e fazendo durar as nossas peças, porque as vidas humanas e o meio ambiente importam.



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