A polêmica das camisetas feministas



Não é novidade que muitas marcas se apropriam de bandeiras que não defendem pelo simples de fato de enxergar ali uma ótima fonte de renda. E com o Feminismo não é diferente!

Um movimento que incorpora muitas questões importantes como remuneração igualitária, combate ao assédio e a misoginia (aversão ao sexo feminino), enfim, que representa toda uma luta em defesa dos nossos direitos, tem tido cada vez mais adeptas, inclusive nos países em desenvolvimento.

Só que justamente nesses países é que estão as mulheres que fazem nossas roupas e que sabemos que são exploradas de todas as formas e que essas mesmas mulheres estão costurando essas camisetas. E é aí que a polêmica começa, já que que a maioria dessas t-shirts é fabricada sob os padrões antiéticos e contraditórios que conhecemos.

O feminismo não é uma tendência.


Nós mulheres representamos 80% de todos os trabalhadores de moda e, literalmente, fazemos essa indústria funcionar. Dessa forma, a produção de têxteis e vestuário é comumente vista como um "trabalho feminino". Mas, pera lá. Isso se aplica aos cargos de chefia ou para os grandes nomes da costura? Definitivamente não.

Já parou pra pensar dos estilistas renomados - aqueles que a gente lembra facilmente quantos são mulheres? Chanel, Stella McCartney, Vivienne Westwood e mais uma meia dúzia. E ser mulher na moda não é diferente do que em qualquer outro ramo, significa que você precisa provar duas vezes - às vezes três - que é, sim, capaz e relevante.

Mas, voltemos ao chão de fábrica. Ao longo dos anos, dezenas de milhões de jovens mulheres migraram da agricultura rural para trabalhar em fábricas urbanas. Porém, a maioria dessas empregadas recebem salários mais baixos e grande parte sequer é remunerada.

Outro ponto que precisamos levar em conta é que além das más condições de trabalho, que tem sido amplamente documentadas, as trabalhadoras do vestuário costumam ser demitidas quando estão grávidas.

Também são dispensadas quando reivindicam melhores salários e são impedidas de criar sindicatos eficazes. Você já foi a algum sindicato onde a representante era uma mulher? No sindicato têxtil da minha cidade não é diferente.

As mulheres ainda sofrem assédio sexual no local de trabalho, onde frequentemente isso é relatado como comum. É uma situação desesperadora. Então, reserve um minuto para imaginar a vida no lugar delas.

Por isso, produzir camisetas feministas de maneira antiética é hipócrita e nada progressiva e vesti-las é compactuar com isso.

Há quem defenda que ter essas t-shirts no mercado permite que mulheres de baixo poder aquisitivo também possam vestir sua verdade por aí. Mas, opa! Seria isso democratizar a moda? Já escutamos essa história democratizar as tendências fazendo roupas em massa e não deu nada certo.

É preciso lembrar que quando levantamos essas questões, não estamos apenas raivosas - ou querendo problematizar o que não deve ser problematizado - estamos apenas pedindo que você pense além.

Em nome da transparência e da moda justa, que não explora nem destrói, apoie a produção ética. E se puder ser negócios pequenos e independentes, melhor ainda! Pois, é com isso que uma camiseta feminista se parece e que faz nos sentirmos fortes toda vez que a usamos.

📸 anaelleclaudet.com


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