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Sou jornalista e escrevo sobre moda. Além disso, criei o B. Office, um escritório de assistência remota para negócios slow fashion.
Neila Bahia

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A polêmica das camisetas feministas

Salvador - BA, Brasil

Não é novidade que muitas marcas se apropriam de bandeiras que não defendem pelo simples de fato de enxergar ali uma ótima fonte de renda. E com o Feminismo não é diferente! Um movimento que incorpora muitas questões importantes como remuneração igualitária, combate ao assédio e a misoginia, enfim que engloba toda uma luta em defesa dos e direitos das mulheres, tem tido cada vez mais adeptas, inclusive nos países em desenvolvimento.

Só que justamente nesses países é que estão as mulheres que fazem nossas roupas e que sabemos que são exploradas de todas as formas, e que essas mesmas mulheres estão costurando essas camisetas e aí que a polêmica começa, já que que a maioria dessas t-shirts foi fabricada sob padrões antiéticos e contraditórios que conhecemos.





O feminismo não é uma tendência da moda.


Nós mulheres representamos 80% de todos os trabalhadores de moda no mundo e literalmente, fazemos essa indústria funcionar. Dessa forma, a produção de têxteis e vestuário é comumente vista como um "trabalho feminino", mas pera lá. Isso não se aplica para os cargos de chefia ou para os grandes nomes da costura. Já parou pra pensar dos estilistas renomados - aqueles que a gente lembra facilmente - quantos são mulheres? Domenico Dolce e Stefano Gabbana, Giorgio Armani, Marc Jacobs, Emilio Pucci, Karl Lagerfeld, Alexander McQueen, Valentino Garavani, Roberto Cavalli, Yves Saint Laurent, Cristobal Balenciaga, Hubert de Givenchy, ChanelStella McCartney, Vivienne Westwood, Miuccia Prada, Carolina Herrera, Jeanne Lanvin. E ser mulher na moda não é diferente, significa que você precisa provar duas vezes mais - às vezes três - que é capaz e relevante.

Ao longo dos anos, dezenas de milhões de jovens ao redor do mundo migraram da agricultura rural para trabalhar em fábricas urbanas. Porém, a maioria dessas mulheres empregadas recebem salários mais baixos e grande parte sequer é remunerada. Outro ponto que precisamos levar em conta é que além das más condições de trabalho, que tem sido amplamente documentadas, as trabalhadoras do vestuário costumam ser demitidas quando estão grávidas. E também são dispensadas quando reivindicam melhores salários e são impedidas de criar sindicatos eficazes. Você já foi a algum sindicato onde a representante era uma mulher? No sindicato têxtil da minha cidade não é diferente.

Particularmente, as mulheres ainda sofrem assédio sexual no local de trabalho, onde frequentemente isso é relatado como comum. É uma situação desesperadora. Então, reserve um minuto para imaginar a vida no lugar delas. Por isso, produzir camisetas feministas de maneira antiética é hipócrita e nada progressiva.

Há quem defenda que ter essas t-shirts no mercado permite que mulheres de baixo poder aquisitivo também possam vestir sua verdade por aí. Mas, opa! Seria isso democratizar a moda? Já escutamos essa história democratizar as tendências fazendo roupas em massa e não deu nada certo. Quando levantamos essas questões, não estamos raivosas - ou querendo problematizar o que não deve ser problematizado - estamos apenas pedindo que você pense além. Em nome da transparência e da moda justa, que não explora nem destrói, apoie a produção ética. Se puder ser os negócios independentes melhor ainda! É com isso que uma camiseta feminista se parece e nos faz sentir fortes, toda vez que a vestimos.

📸 anaelleclaudet.com



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